
Eis que chega um dos momentos mais esperados da semana pra nós devotos do futebol: o boteco, na companhia de bons amigos e da cervejinha sempre gelada. Que as mulheres, namoradas, amigas e afins me ouçam e que procurem me entender: o que este singelo encontro tem de simples, tem de sagrado.
É nesse momento que podemos expressar o orgulho de defender as cores de nossos clubes. É neste momento também, que achamos que entendemos mais de futebol do que qualquer treinador. Ou que temos mais técnica que os boleiros mais badalados dos sertames. Neste templo nos tornamos críticos de renome, contundentes nas declarações e insuperáveis nas previsões. E quer saber: ali os somos mesmo!
No mesmo bar - e mesa -, nesta noite de segunda-feira, as forças do futebol paulista estavam ali muito bem representadas. Éramos quatro “especialistas”, ansiosos para falar de futebol após longa espera - uma semana. Dois alvinegros, um deles praiano. Logo um tricolor - e de Morumbi - e eu de verde, que, de tão inquieto não conseguia posicionar-me na cadeira.
“Que acontece, meu caro?” – pergunta Joca, que é mano. “Que acontece?! – contesto. “Aconteceu o que não podia acontecer! O Verde deixou o Sampa encostar! E o Sampa quando chega...Não gosto nem de pensar!” – desabafei. Continuo: “E vocês nem pra aliviar essa pra gente. Se o Tricolor levar de novo é tudo culpa do Ronaldo e dos seus capangas lá do Coringão! – encerro, já alterado.
Joca, numa súbita reação, indigna-se: “Você queria que fizéssemos o que?! Que deixássemos vocês ganharem?! Tudo bem que eu prefiro ver os Porcos campeões a ver os Bâmbis de novo. Mas outros fatores contaram, como esse maldito tabu de três anos apanhando pra vocês. Tenha dó né?! Se não consegue se garantir na ponta não nos culpe!”, responde e fecha a cara.
Havíamos extrapolado. Não estávamos ali para discutir e, a esta altura, nossa mesa redonda de toda semana se parecia com o muro das lamentações – e das provocações também.
Mas elegância e cordialidade – oriundas de nossa velha amizade – vieram à tona. E foi com o Bita, praiano. “Amigos, não há porque discutir. E vou dizer por quê.” - iniciou. “Pensem no meu caso.” – prosseguiu. “Meu Peixão tá numa pior. Não briga por nada no campeonato. Nem Liberta dá. E ainda tem um treinador que parece não querer estar na Vila.”- sintetizou. “Vocês pelo menos já estão na Liberta. E o Verde, Tuca, tá brigando pelo título.” – concluiu.
Engoli seco, e o Joca também. Brindamos por solidariedade ao nosso velho amigo.
O Guga também estava lá. Vestia branco, preto e vermelho. Estava mais calado do que de costume. Estranho, pois com ele não havia silêncio. Era Tricolor aqui, ali e na ponta do Brasileiro. Isso por três temporadas consecutivas. Refez seu sorriso – quase que sarcástico – de conta de boca e, tranquilamente, começou: “Tuca, esse campeonato está sendo foda pra nós. Ninguém botou fé, e chegamos lá. Agora estamos com vocês, lado a lado.” – dizia. Eu suava frio, já esperava pelos maus presságios. “Eu fiquei quieto desde o começo, e te juro: se o Sampa ganhar, me segura. Vai lá, vai lá e vai lá” - avisou.
Posso garantir, depois dessa o silêncio pairou absoluto na mesa. Fora levado a sério.
Ao final, a somatória na mesa e o "chefe" - sempre prestativo - com a "saideira" na mão. Conscientes de que havíamos feito um bom trabalho, nos levantamos, despedimos e voltamos pra casa com a certeza de que tudo o que fora dito a pouco fosse irrefutável realidade.
Até a próxima rodada.
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