terça-feira, 10 de novembro de 2009


Segunda-feira à noite, é dia de encontro. A semana mal começou e já nos sentamos à mesa para mais uma sessão semanal de análise - da rodada, claro. Chega a gelada e saudamos: "Que a bola nunca pare de rolar".

Algo me incomodava nas feições de meus amigos. Pareciam receosos comigo. E me olhavam apreensivos, como que esperando algum acesso de descontrolada ira de minha parte.

Bita quebra o gelo e, como sempre, brinca: "Tá nervosinho, tá, Tuquinha?", pergunta. "Tô puto, p...", respondo. "Passei a noite no 2° DP, ali na Vila Esperança", continuo. "Quê isso, mermão. Tá mexendo com droga? Virou bandido?", expanta-se. "Magina, Bita! Eu fui bem criado. Eu fui mesmo é dar parte do Simon na delegacia. Aleguei assalto, e à mão armada", me explico. "Pra piorar, o delegado era Gambá e, não só tirou uma com a minha cara, como me mandou voltar pra casa. Pode?!"

Não deu outra: gargalhada geral. Era a deixa que eles precisavam.

"Tuca, pára de chorar. Esse juizinho já errou com todos os nossos times. Não vem com esse papo não!" - alfinetou Guga, tricolor. "Você tá é querendo botar a culpa em alguém pro fracasso do teu Verdinho", prosseguiu. "E já está sofrendo por antecipação com a perda do título para o meu São Paulo", desferiu mais um golpe. "Olha, não fica assim não, enxe teu copo vai". Aceitei.

Enquanto isso, o Joca falava ao celular. Era a terceira ligação seguida. Falava alto como uma matraca e chamava a atenção do bar inteiro. "Faaala, fera! Tá sabendo da nova piada do Timão?", perguntava aos amigos manos, do outro lado da linha. "Qual o filme do Coringão?", indagava. "É 'Triplo R' (alusão ao filme Triplo X, aquele do Van Diesel). Ronaldo, Riquelme e Roberto Carlos", sacramentava, para depois emergir numa incontrolável onda de gargalhadas.


Perplexos nos encaramos, até que Joca voltou sua atenção para a mesa. "Sentiram o drama, né?! Meu Timão contrata mesmo. Tudo mundo quer vestir o manto", orgulhava-se. "Pode vir a porcada, os bâmbis e até o Boca. Essa Liberta ninguém tira", finalizou reluzente.

De repente o Bita se levanta, e diz: "Caros, apesar da péssima piada, o papo está muito bom. Mas infelizmente deixo vocês mais cedo, pois ainda preciso passar no shopping. O Bitinha quer porque quer uma camisa do Neymar para ir pro colégio. E não é que o menino desencantou mesmo?!" - reconheceu.

Aproveitamos e também fomos embora. Não sei antes deixar uma 'caixinha' para a chefia.

Até a próxima.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009


Eis que chega um dos momentos mais esperados da semana pra nós devotos do futebol: o boteco, na companhia de bons amigos e da cervejinha sempre gelada. Que as mulheres, namoradas, amigas e afins me ouçam e que procurem me entender: o que este singelo encontro tem de simples, tem de sagrado.

É nesse momento que podemos expressar o orgulho de defender as cores de nossos clubes. É neste momento também, que achamos que entendemos mais de futebol do que qualquer treinador. Ou que temos mais técnica que os boleiros mais badalados dos sertames. Neste templo nos tornamos críticos de renome, contundentes nas declarações e insuperáveis nas previsões. E quer saber: ali os somos mesmo!

No mesmo bar - e mesa -, nesta noite de segunda-feira, as forças do futebol paulista estavam ali muito bem representadas. Éramos quatro “especialistas”, ansiosos para falar de futebol após longa espera - uma semana. Dois alvinegros, um deles praiano. Logo um tricolor - e de Morumbi - e eu de verde, que, de tão inquieto não conseguia posicionar-me na cadeira.

“Que acontece, meu caro?” – pergunta Joca, que é mano. “Que acontece?! – contesto. “Aconteceu o que não podia acontecer! O Verde deixou o Sampa encostar! E o Sampa quando chega...Não gosto nem de pensar!” – desabafei. Continuo: “E vocês nem pra aliviar essa pra gente. Se o Tricolor levar de novo é tudo culpa do Ronaldo e dos seus capangas lá do Coringão! – encerro, já alterado.

Joca, numa súbita reação, indigna-se: “Você queria que fizéssemos o que?! Que deixássemos vocês ganharem?! Tudo bem que eu prefiro ver os Porcos campeões a ver os Bâmbis de novo. Mas outros fatores contaram, como esse maldito tabu de três anos apanhando pra vocês. Tenha dó né?! Se não consegue se garantir na ponta não nos culpe!”, responde e fecha a cara.

Havíamos extrapolado. Não estávamos ali para discutir e, a esta altura, nossa mesa redonda de toda semana se parecia com o muro das lamentações – e das provocações também.

Mas elegância e cordialidade – oriundas de nossa velha amizade – vieram à tona. E foi com o Bita, praiano. “Amigos, não há porque discutir. E vou dizer por quê.” - iniciou. “Pensem no meu caso.” – prosseguiu. “Meu Peixão tá numa pior. Não briga por nada no campeonato. Nem Liberta dá. E ainda tem um treinador que parece não querer estar na Vila.”- sintetizou. “Vocês pelo menos já estão na Liberta. E o Verde, Tuca, tá brigando pelo título.” – concluiu.

Engoli seco, e o Joca também. Brindamos por solidariedade ao nosso velho amigo.

O Guga também estava lá. Vestia branco, preto e vermelho. Estava mais calado do que de costume. Estranho, pois com ele não havia silêncio. Era Tricolor aqui, ali e na ponta do Brasileiro. Isso por três temporadas consecutivas. Refez seu sorriso – quase que sarcástico – de conta de boca e, tranquilamente, começou: “Tuca, esse campeonato está sendo foda pra nós. Ninguém botou fé, e chegamos lá. Agora estamos com vocês, lado a lado.” – dizia. Eu suava frio, já esperava pelos maus presságios. “Eu fiquei quieto desde o começo, e te juro: se o Sampa ganhar, me segura. Vai lá, vai lá e vai lá” - avisou.

Posso garantir, depois dessa o silêncio pairou absoluto na mesa. Fora levado a sério.

Ao final, a somatória na mesa e o "chefe" - sempre prestativo - com a "saideira" na mão. Conscientes de que havíamos feito um bom trabalho, nos levantamos, despedimos e voltamos pra casa com a certeza de que tudo o que fora dito a pouco fosse irrefutável realidade.

Até a próxima rodada.